sábado, 13 de fevereiro de 2010

Rock X Carnaval

Toda vez que o carnaval se aproxima, surgem aqueles inúmeros seres humanos providos de alguma coisa útil na cabeça que detestam a festa mais popular do Brasil.

“Eu odeio carnaval! Enquanto não acabarem com isso, o Brasil não irá pra frente.” Essa é uma das teses sobre o assunto mais ouvidas país afora.

Há também opiniões um tanto quanto radicais. “Alguém aí já ouviu falar de Motörhead, um bando de cabeludos, feios e barulhentos? Tinha que colocar eles pra tocar no trio elétrico de Salvador e dar um fim nisso!”. Imagine a cena: Lemmy & cia. em cima de um trio, no calor de Salvador, estourando os auto-falantes com “Iron fist”.

E que tal irmos mais adiante nessa viagem, imaginando um “universo paralelo” onde o trio elétrico ao invés de ter sido criado por Dodô e Osmar tivesse como pais Chuck Berry e Elvis Presley, e a música baiana fosse ouvida por uma minoria de cabeludos com camisetas pretas do Olodum, Timbalada, Banda Eva e garotas com shortinhos deixando a bunda de fora?

Você já se imaginou debatendo num fórum de um site chamado “Pombo Correio” qual o maior hino que Carlinhos Brown já concebeu? “Bebeu água? Tá com sede?” ou “Vai buscar Dalila ligeiro”? Isso sem falar que haveria muitos pais e mães que proibiriam seus filhos de ouvir os discos daquele maluco baiano, porque acreditariam que ele tem pacto com o demônio.

Como seria um debate pra escolher a maior vocalista do mundo? Ivete e Cláudia Leite dividiriam os votos dos internautas, mas com certeza haveria os “puristas”, que prefeririam as vozes clássicas de Daniela Mercury ou Margareth Menezes.

E a tour do G3? Quem dividiria o palco? Robertinho do Recife, Pepeu Gomes e Durval Lelis divulgando seu álbum solo? Isso sem falar que haveria bandas e mais bandas dos mais variados estilos, como samba progressivo, frevo melódico, speed axé e afins.

Já do outro lado da moeda, o Fantástico promoveria aos domingos um grande concurso de “Hinos do metal”, ao invés do “Concurso de marchinhas”. As escolas do Rio de Janeiro e São Paulo exibiriam em sua sessão rítmica uma pá de guitarristas virtuosos acompanhados de orquestras sinfônicas, onde os jurados votariam qual foi melhor no quesito “virtuosismo e variedade de escalas”. Dá até pra imaginar Joe Satriani comentando ao lado do Cléber Machado: “A escola tal tem uma boa harmonia, mas abusou muito das pentatônicas, e isso pode custar alguns pontos na apuração de quarta-feira”.

Na TV, assistiríamos a um seriado chamado “Heavy Metal Thunder” ao invés de “Ó Paí Ó”, onde o cenário deixaria de ser o Pelourinho e a ação se passaria em Birmingham, cujo personagem principal seria um jovem dislexo de apelido Ozzy contando suas aventuras ao tentar montar uma banda.

Ah sim, é claro, os trios elétricos mais disputados de Salvador seriam os do Motörhead, do Slayer e do Metallica. Ao invés do abadá, a multidão teria que trajar uma jaqueta preta de couro e coturnos. Ao invés de pulserinha vip, um spike cheio de tachinhas no punho. E ao invés de assistirmos ao tradicional desfile de fantasias de plumas e paetês nos canais de TV de menos audiência, teríamos um concurso de “corpse paintings”, cujos comentaristas seriam Alice Cooper, Paul Stanley e Gene Simmons.

E se o mundo fosse assim? Um lugar onde fosse um horror ligar a TV e dar de cara com um bando de malandros “cantando” para mulheres seminuas sambarem? Um lugar onde estivesse tudo bem se as crianças ouvissem e cantassem “The number of the beast” ao invés de usar trajes minúsculos e aprendendo coreografias sentadas na boquinha da garrafa ou algo como o tal do créu?

Quem sabe assim seríamos vistos com outros olhos quando alguém entrasse no nosso carro pra pegar uma carona e estivesse rolando “Holy wars” ou “Tears of the dragon” no som, ao invés do previsível “Você ouve isso?”. Quem sabe tal reação não se inverteria, e ao ouvirmos alguém cantarolando “Dança da manivela” pudéssemos ficar indignados e ter o apoio da maioria.

Mas também poderia ser pior. Quem sabe nós rockeiros é que faríamos parte da minoria neste universo paralelo e estaríamos aí aguardando ansiosos pela turnê de reunião da banda Cheiro de Amor, enquanto o restante da população nos indagaria com os dedos indicadores em riste: “Você teve coragem de pagar R$300,00 pra ir ver um show desses?”

Pois bem, pra quem curte Carnaval, bons dias de folia e mais folia, sem preconceitos. Particularmente, é preferível reunir a galera em um suculento churrasco ao som de Pink Floyd e Dire Straits a inundar a mente com tamanha poluição sonora de algo deplorável chamado axé, samba ou pagode.


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